Grooming: o que é, como identificar e como proteger seu filho
- 22 de mai.
- 5 min de leitura
Imagine que seu filho de 11 anos está jogando online, algo completamente normal para a idade. Em algum momento, um desconhecido entra em contato, oferece itens raros no jogo, elogia as habilidades dele e começa a conversar com frequência. Com o tempo, a conversa migra para o WhatsApp. Os assuntos mudam. O seu filho começa a esconder o celular.
Esse é um dos roteiros mais comuns do grooming. E ele começa de um jeito que nenhuma criança — e muitos adultos — reconheceria como perigoso.
O que é grooming?
Grooming é o processo pelo qual um adulto estabelece, de forma deliberada e gradual, laços de confiança e afeto com uma criança ou adolescente com o objetivo de abusá-la sexualmente, seja de forma virtual ou presencial.
O nome vem do inglês to groom, que significa cuidar, preparar. É exatamente isso que o agressor faz: ele prepara a criança ao longo do tempo, construindo uma relação que parece genuína, até que a vítima não percebe mais onde está o limite entre amizade e manipulação.
É importante entender: grooming não é um evento isolado. É um processo. E é justamente por isso que é tão difícil de identificar, tanto para a criança quanto para os pais.
Como o grooming acontece na prática
O processo costuma seguir etapas bem definidas:
Seleção da vítima: O agressor identifica crianças que parecem mais vulneráveis: aquelas que demonstram carência de atenção, que postam sobre problemas em casa, que têm poucos amigos ou que passam muito tempo online sem supervisão.
Conquista da confiança: O contato começa de forma completamente inocente. Uma pergunta sobre o jogo, um elogio, uma oferta de ajuda. O agressor se posiciona como alguém que entende a criança, que não a julga, que está sempre disponível.
Isolamento: Aos poucos, ele incentiva a criança a não contar sobre a amizade para os pais. Cria um segredo especial. Diz que os adultos não entenderiam. A criança começa a proteger essa relação.
Dessensibilização: Temas sexuais começam a aparecer nas conversas, de forma gradual e normalizada. Pode começar com piadas, depois imagens, depois pedidos. A criança vai sendo condicionada a aceitar o que antes acharia errado.
Abuso: O agressor usa o material obtido para chantagear, ou avança para o contato presencial. Em muitos casos, a criança já está tão envolvida emocionalmente que não reconhece o que está acontecendo como abuso.
Onde o grooming acontece
Qualquer plataforma onde crianças interagem com desconhecidos pode ser usada. As mais comuns são:
Jogos online com chat integrado (Roblox, Free Fire, Minecraft, entre outros)
Redes sociais Instagram, TikTok, especialmente por direct
Aplicativos de mensagens WhatsApp e Telegram
Fóruns e comunidades online voltados a interesses infantis
A migração entre plataformas é uma tática clássica: o contato começa onde a criança se sente segura (dentro do jogo) e depois é transferido para um canal mais privado, onde os pais têm menos acesso.
Sinais de alerta que merecem atenção
Nenhum sinal isolado confirma que seu filho está sendo vítima de grooming. Mas alguns comportamentos, especialmente quando aparecem juntos ou de forma repentina, merecem uma conversa:
Esconde o celular ou muda de tela quando você se aproxima
Fica agitado ou ansioso quando recebe notificações de determinado contato
Menciona um amigo online que você nunca ouviu falar, e que é muito mais velho
Recebe presentes, créditos em jogos ou dinheiro de alguém que conheceu online
Acorda de madrugada para usar o celular
Fica retraído, com mudanças de humor, menos interesse em atividades que antes gostava
Pede para ter mais privacidade do que o habitual, de forma abrupta
O que diz a lei brasileira
O grooming é crime no Brasil. O artigo 241-D do Estatuto da Criança e do Adolescente, incluído pela Lei nº 11.829/2008, tipifica como crime aliciar, assediar, instigar ou constranger, por qualquer meio de comunicação, criança com o fim de com ela praticar ato libidinoso. A pena é de reclusão de 1 a 3 anos, e multa, com aumento de até um terço quando o crime é cometido pela internet.
Mais recentemente, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (Lei nº 15.211/2025), em vigor desde março de 2026, trouxe uma obrigação importante para as plataformas: elas agora são legalmente obrigadas a reportar às autoridades qualquer conteúdo que configure aliciamento de menores identificado em seus sistemas. Isso significa que a responsabilidade não recai só sobre os pais; as empresas de tecnologia também têm um papel ativo na proteção.
Como proteger seu filho
Proteção digital não é sobre proibir. É sobre preparar.
Crie um ambiente de conversa antes que o problema apareça
A criança que sabe que pode contar para os pais sem medo de punição é a criança que vai pedir ajuda quando algo estranho acontecer. Esse canal de comunicação se constrói no cotidiano, muito antes de qualquer crise.
Fale sobre o assunto de forma direta e sem catastrofizar
Explique o que é grooming com exemplos concretos e adequados para a idade. Crianças mais novas precisam entender que adultos que oferecem presentes e pedem segredo online são um sinal de perigo. Adolescentes conseguem compreender o processo completo.
Estabeleça combinados sobre contatos online
Acordem juntos que qualquer pessoa nova que entrar em contato online, especialmente adultos, precisa ser apresentada aos pais. Não como regra autoritária, mas como acordo de segurança.
Monitore sem invadir
Conhecer os jogos e aplicativos que seu filho usa, saber com quem ele conversa e estar presente no ambiente digital não é invasão de privacidade; é presença parental. A diferença está na forma: monitorar com diálogo é diferente de vigiar com desconfiança.
Use as ferramentas disponíveis
Configurações de privacidade em jogos e redes sociais podem limitar o contato com desconhecidos. No Instagram, é possível restringir quem pode enviar mensagens diretas. No Roblox, é possível desativar o chat com pessoas fora da lista de amigos.
Se você suspeitar que algo está acontecendo
Não reaja com raiva ou punição. A criança precisa sentir que pode contar com você, não que vai ser culpada pelo que aconteceu
Preserve as conversas. Antes de bloquear ou deletar qualquer coisa, faça capturas de tela de todas as mensagens — elas são prova
Registre boletim de ocorrência na Delegacia de Crimes Cibernéticos do seu estado ou na delegacia mais próxima
Denuncie à SaferNet em safernet.org.br ou pelo 0800 006 1368, gratuito e sigiloso, disponível 24 horas
Busque apoio psicológico. A criança vítima de grooming precisa de suporte emocional — e você também
Uma última palavra
Grooming acontece porque os agressores são muito bons no que fazem. Eles não parecem monstros. Parecem amigos. E é exatamente por isso que a melhor proteção não é o controle; é a confiança.
A criança que sabe que pode contar para os pais, que conhece os sinais de perigo e que não tem medo da reação dos adultos ao redor dela tem muito mais recursos para se proteger do que qualquer aplicativo de controle parental consegue oferecer.
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Letícia Sell é advogada especialista em Direito Digital, mãe e autora do livro Crianças nas Redes Sociais.
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